Ancestralidade, travessia e laços identitários unem mulheres negras durante evento da APUR

A Associação dos Professores Universitários do Recôncavo (APUR) realizou a mesa de debates “Mulheres afrodiaspóricas em conexão com mulheres africanas”, no Centro de Formação de Professores (CFP/UFRB), em Amargosa, na noite desta quarta-feira, 9. O encontro contou com a participação das professoras palestrantes Francys Cerqueira (UESB), Yérsia Souza de Assis (CFP/UFRB) e Maicelma Maia Souza (CFP/UFRB), além da mediação da professora Fernanda Cristina de Souza (CFP/UFRB). O evento faz parte do Julho das Pretas, que homenageia as trajetórias, experiências e lutas de mulheres negras.

As professoras convidadas discorreram sobre seus percursos formativos e políticos, abordando o autoconhecimento, a ancestralidade, a raça, o gênero, a África, a identidade, dentre outros aspectos.

Mulheres transatlânticas

A mesa de debates uniu mulheres transatlânticas, isto é, brasileiras que possuem laços históricos, culturais e identitários firmes com o continente africano. De acordo com a professora Francys Cerqueira (UESB), que abriu a mesa de debates e compartilhou suas vivências em Moçambique, o processo de travessia à África é de autoconhecimento.

“Eu quero compartilhar com vocês essa travessia. […] Meu primeiro ponto de contato com a minha essência ancestral. E essa travessia é muito linda. Até então um lugar de martírio para muitos, inclusive gostaria de saudar os que vieram antes de mim, mas um lugar de descoberta para mim”, disse.

Ainda conforme a professora Francys, a travessia também une mulheres negras para além da tragédia social.

“É o pensar para além da dor, o que nos une, o afeto, por exemplo, em qualquer lugar do mundo. […] Mulheres negras que levam o mundo nas costas. […] Essa foi a maior viagem da minha vida. Conhecer a África, um lugar de potência”, explicou.

Ancestralidade

Já a professora Yérsia Souza (CFP/UFRB), abordou a travessia sob a ótica do relacionamento direto com a ancestralidade através dos estudos sobre os laços familiares da sua trisavó, que veio sequestrada da África pelos europeus. As falas ressaltam também a necessidade de promoção do conhecimento acadêmico produzido e influenciado por pesquisadores/as negros(as)/africanos(as).

Segundo Yérsia, a sua ida à Angola reacende a travessia feita por sua ancestral. No entanto, ao contrário da sua trisavó, que fez a travessia em negação, Yérsia retornou ao continente para afirmar a sua ancestralidade.

“Diferente da minha trisavó, eu aportei em Angola como uma estudante de pós-graduação. A dinâmica dessas travessias demonstra as mudanças que ocorreram e as novas possibilidades geradas. É importante postular que o Julho das Pretas é uma agenda política e de lutas.”

Tradições

A travessia também foi abordada pela professora Maicelma Maia (CFP/UFRB), que esteve em Cabo Verde durante a pós-graduação. Conforme a professora Maicelma, embora o colonialismo europeu ainda persista nas relações pessoais e econômicas no país africano, as tradições e os costumes do povo constituem um território fixo em cada pessoa.

“É uma grande satisfação, uma grande alegria, encontrar estas mulheres aqui e nesta mesa. Para falar desse território que está em nós. Chama viva, energia para continuarmos vivas. Enquanto ouvia as histórias anteriores, foram passando diversas memórias em minha mente. O chamado da nossa ancestralidade”, declarou.

Aquilombamento

A mesa de debates foi realizada pela Diretoria da APUR e teve o intuito de trazer luz às experiências de mulheres negras durante o Julho das Pretas. O intuito, de acordo com a secretária da APUR, professora Maíra Lopes, da mesa é de criar um processo de aquilombamento na seção sindical.

“A gente agradece a presença de todos e todas, especialmente da mesa, por ter trazido a partilha de trajetórias que relacionam o Brasil e a África. Não visitei países africanos como as professoras, mas, enquanto mulher transatlântica, as experiências me atravessam, como na capoeira quando os tambores batem muito forte e me aproximo da minha ancestralidade. Quando pensamos nesta mesa, a APUR teve o intuito de fazer do nosso sindicato um quilombo de pessoas negras, de mulheres negras. Este é o segundo encontro que realizamos no nosso sindicato”, concluiu.

Abaixo, confira uma seção de fotos da nossa mesa de debates:

Leonardo

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