“CADA QUAL NO SEU QUADRADO” – a Portaria 1.030 de 01 de dezembro de 2020 e seus desdobramentos dentro e fora das universidades.

José Rahi Santos A portaria Nº 1.030 de 01 de dezembro, estabelece algo muito maior do que o retorno as aulas presenciais e o uso excepcional de recursos tecnológicos para complementariedade da carga horária das atividades pedagógicas. Ela, em seu conteúdo objetivo impõe que as instituições de ensino superior e seus órgãos colegiados elejam as disciplinas/componentes pedagógicos que podem ser ministrados com o uso da mediação tecnológica e digital. Mas, de forma subliminar, estabelece a possibilidade objetiva de um modelo híbrido de ensino. A situação proposta pela portaria, alia-se ao discurso dos altos custos para manutenção dos discentes nas universidades federais. Uma vez que, o ensino mediado por ferramentas tecnológicas reduziria os gastos de manutenção predial, energia elétrica, água, apoio e auxílio aos discentes, dentre outros que, para esse atual governo, não são investimentos, e sim despesas onerosas aos cofres públicos. Por outro lado, mas não tão distante da representação que tem a ciência e seus saberes para esse governo, há aí, um redirecionamento do foco da luta. Se anteriormente, o governo e o MEC eram os opositores mais prementes. Agora, essa portaria estimula, que no interior das universidades, grupos de servidores docentes e técnicos, como também discentes, terceirizados, familiares e comerciantes no entorno das instituições, passem a vislumbrar essa possibilidade como uma retomada das suas vidas para uma normalidade que se encontra suspensa pela excepcionalidade que a pandemia impõe. Nessa perspectiva, passa-se ao segundo ponto de reflexão, que pretende expor as fraturas e fragmentações que os saberes científicos têm no mundo acadêmico e científico. Qual seja: Qual área do conhecimento, poderá ter seus componentes ministrados de forma remota? Qual a importância e relevância desses conhecimentos para o futuro da sociedade? O meu componente não pode ser remoto, mas aquele ali pode! Esse debate, que se apresenta de forma subliminar nas redefinições dos currículos dos cursos, ganhará força mediante a necessidade de exposição perante a comunidade, daquilo que cada colegiado ou núcleo estruturante considera relevante para a formação profissional dos discentes. Assim a eleição de conteúdo, componentes e áreas de conhecimentos específicos na formação esvaziará as formações ampliadas ou amplificadas pelo conhecimento multidisciplinar. O debate de caráter nacional fragmenta-se e torna-se atomizado, ou como diria aquela música, “Cada qual no seu quadrado”. Essa fragmentação, demonstra a fissura que o esvaziamento do debate político e crítico contínuo promoveu na sociedade. Trata-se da dissolução da bandeira de luta nacional, para eleição de bandeiras locais cuja preocupação estará em assegurar a relevância do seu conhecimento na formação profissional de discentes das mais diversas áreas do conhecimento. Portanto, considero que o mote da portaria “retorno as aulas presenciais nas universidades federais” é uma cortina de fumaça, que embaça os olhos e nos transforma em Dom Quixotes, cavaleiros andantes e errantes balizados pelas nossas interpretações sobre o que lemos, e que estabelece quem somos, e cuja morte, seria o momento capaz de resgatar nossa racionalidade. O mote de Dom quixote era a sagração como Cavaleiro e, posteriormente, como herói, sua busca foi esse mergulho profundo no mundo que apreendeu com os livros. Na portaria o mote é a dissolução da universidade pública e presencial, gratuita e de qualidade. Mas não para todos, mas para aqueles que agora serão definidos pela própria comunidade acadêmica, como passíveis de serem compartilhados e curtidos de forma remota. Esse será nosso inimigo mais premente, Nós mesmos e nosso julgamento sobre o exercício multidisciplinar na formação dos profissionais das mais distintas áreas. Para além dessa dimensão que trata da dissolução das áreas de conhecimento, está o esvaziamento das políticas de manutenção e permanência de estudantes em condição de vulnerabilidade social nas universidades federais. Esse ponto se apresenta no esvaziamento dos auxílios e cortes de recursos do Programa Nacional de Assistência Estudantil, uma vez que é um programa e não uma política de Estado. Implica na alteração do perfil do discentes em virtude da escassez de auxílios para assegurar a permanência. Implica na exposição das fragilidades sanitárias e de cumprimento das normas de distanciamento social em virtude de deslocamentos e vivências cotidianas. A eleição das áreas de conhecimento que serão remotas e mediadas por equipamentos tecnológicos e digitais, impacta diretamente nos auxílios oferecidos para discentes dessas áreas. E, isso se dará em detrimento da manutenção desses mesmos auxílios para aquelas consideradas prioritárias e de prestígio, cuja participação desse perfil de alunado – vulnerabilidade social e hipossuficiência – não representa uma alteração do perfil do curso e do profissional que daí emerge. Portanto, considero que essa portaria é um cavalo no meio do tabuleiro, aparentemente protegido por um peão, mas que de forma estratégica e como mais um ou duas jogadas ameaça o trono e impõe a derrota. “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é! É ruim da cabeça ou doente do pé” Vamos sambar juntos! Pois separados seremos substituídos por nosso egocentrismo científico. Lauro de Freitas, dezembro da excepcionalidade, 2020 – o ano em que a terra parou.
Abaixo a Reforma Administrativa (PEC 32). Fora Bolsonaro!

Antonio Eduardo Alves de Oliveira Dia 28 de outubro é dia do servidor público, esta data que deveria ser de celebração, está marcada por ofensiva sem precedente do governo golpista de Jair Bolsonaro contra os servidores públicos. Além dos salários aviltados por uma política de nenhum reajuste nos anos, os servidores estão ameaçados pela Reforma Administrativa (PEC 32/2020) que o governo encaminhou ao Congresso Nacional. Essa PEC representa a liquidação do Regime Jurídico Único, que vigora na administração pública. Portanto, a questão central para as diferentes categorias e esferas que compõem o serviço público (seja federal, estadual ou municipal) é a necessidade de superar a paralisia e constituir um amplo movimento de luta não somente contra a Reforma Administrativa, mas para derrotar o governo Bolsonaro, através da unidade com o conjunto da classe trabalhadora e dos movimentos populares pelo Fora Bolsonaro. O governo Bolsonaro e a imprensa capitalista têm realizado uma intensa campanha apresentando os servidores públicos como verdadeiros marajás. Trata-se de uma manipulação grotesca da realidade, para manipular deliberadamente as informações para promover um desmonte do serviço público e atacar ainda mais profundamente os servidores públicos. Nem mesmo a pandemia do Coronavírus fez com que esses ataques contra os servidores públicos arrefecessem, pelo contrário, a burguesia se unificou para inclusive intensificar os ataques. Assim, o Congresso Nacional, os governos executivos e o STF, com apoio da imprensa, intensificaram medidas contra os servidores, como o congelamento salarial e retirada de parte dos rendimentos. Além disso, cinicamente apresentam os servidores como “privilegiados” devido a estabilidade do Regime Jurídico Único. Dados divulgados pelo Dieese sobre rendimento do servidor público evidenciam que a situação é muito distante do que apresentada pela campanha reacionária para justificar a Reforma Administrativa. “Em relação aos rendimentos, a maior parte dos funcionários públicos (57%) tem rendimentos concentrados na faixa de até 4 salários-mínimos, ou seja, de R$ 3.816,00 (dados de 2018). No serviço público municipal, o percentual dos que auferem este rendimento corresponde a 73%, faixa na qual estão concentrados 56% dos servidores estatutários do Brasil” (RAIS, 2018). Além do mais, mesmo antes da Reforma Administrativa, já é uma prática corrente a precarização do serviço público, com uso corrente de contratação temporária e da terceirização nos órgãos públicos. Nas instituições de ensino superior, uma parte significativa do funcionalismo é constituída por terceirizados, que inclusive estão sendo demitidos ou até mesmo recontratados com salários menores, em virtude das regras draconianas aprovadas na Reforma Trabalhista, sem contar a falta ou atraso de pagamentos por parte das universidades em decorrência dos sucessivos cortes de verbas. A Reforma Administrativa que a burguesia quer impor é parte da política de conjunto do regime golpista, instalado no país após a derrubada do governo Dilma. Os governos golpistas empregam a premissa de que é preciso realizar “reformas” para cortar gastos, adotando a “austeridade” como mantra para deteriorar os serviços públicos, e desmantelar direitos históricos dos trabalhadores. Assim, o objetivo dos capitalistas é promover uma transferência de renda, retirando dinheiro do povo para favorecer os grandes grupos econômicos, em especial os banqueiros. A Reforma Administrativa segue a mesma tourada da Emenda Constitucional 95 (congelamento do investimento público nas áreas sociais), as reformas trabalhista e da previdência. A Reforma Administrativa tem como um dos objetivos centrais o fim da estabilidade do servidor. A estabilidade estaria supostamente condicionada ao “desempenho satisfatório”. Na verdade, ao apontar a possibilidade de demissão, a PEC coloca o servidor com uma faca permanente no pescoço, permitindo aos governos demitirem a qualquer momento, além de legalizar uma pressão permanente das chefias sobre os trabalhadores, que em nome da “avaliação de desempenho” estabelece uma rede de perseguição. Outro ponto extremamente negativo na PEC 32 é o fim da progressão por tempo de serviço, afetando os aposentados e o funcionalismo na ativa, neste último caso o governo procura apresentar uma propaganda que as regras draconianas somente seriam aplicadas integralmente nos próximos ingressantes no serviço público. Mas, de qualquer forma, ao retirar o direito à progressões por tempo de serviço e/ou automáticas, o governo pretende reduzir drasticamente a remuneração média no decorrer da carreira. Além disso, existe o aumento do poder discricionário do Executivo em eliminar cargos, funções, benefícios e instituições, permitindo o desmantelamento do serviço público efetivamente. Na prática, as carreiras e funções estatais deixam de ser parte de uma estrutura de administração pública, ficando completamente à mercê dos governos de plantão. Como destacado no estudo Síntese especial: subsídios para debate Reforma Administrativa do governo Bolsonaro do Dieese, os eixos fundamentais da Reforma Administrativa da PEC 32, são os seguintes: “Dificulta o acesso à estabilidade; o Cria a avaliação de desempenho; o Abre espaço para o fim do regime jurídico único, especialmente no que diz respeito à previdência, já que possibilita incluir novos servidores no Regime Geral da Previdência Social; Amplia a possibilidade de contratação de temporários e possibilita aumento de terceirizações; o Facilita as privatizações ao retirar do Legislativo a responsabilidade por esse processo e inclui como atribuição privativa do presidente da República a “extinção, transformação e fusão de entidades da administração pública autárquica e fundacional” (Inciso IV, art. 84, PEC 32/2020). Um dos pontos fundamentais da PEC é o fim do “regime jurídico único” para futuros servidores e institui cinco modalidades: “Cargo típico de Estado: estabilidade após três anos; reservado a postos considerados estratégicos do funcionalismo público; o Cargo por prazo indeterminado: sem estabilidade, destinado a servidores de apoio administrativo; ingresso por concurso público; o Vínculo de experiência: período de experiência com avaliação de desempenho por, no mínimo, dois anos para cargos típicos de Estado e de um ano para cargos com prazo indeterminado. Mesmo depois de passado esse período, o trabalhador não terá direito automático ao posto de trabalho. o Vínculo de prazo determinado: para as contratações de servidores temporários, sem direito à estabilidade, o ingresso será por meio de seleção simplificada. Amplia as situações em que podem ocorrer contratações temporárias; o Cargo de liderança e assessoramento: substitui os cargos comissionados e funções gratificadas. Também não possuí estabilidade”. (síntese especial: subsídios para
LUTA UNITÁRIA EM DEFESA DA UNIVERSIDADE PÚBLICA

Por Antonio Eduardo Alves de Oliveira No último dia 4 de agosto, ocorreu a reunião virtual para a rearticulação do Fórum Tripartite do CAHL (Centro de Artes, Humanidades e Letras) da UFRB. A retomada da discussão coletiva entre estudantes, servidores técnicos, professores, trabalhadores terceirizados e membros da comunidade das cidades de Cachoeira, São Félix, Muritiba, entre outras cidades do Recôncavo da Bahia. A pauta principal da reunião, como não poderia deixar de ser, foi a conjuntura e os impactos da covid-19. Ao final da reunião, foi aprovada uma campanha contra o retorno das aulas presenciais. A construção de Fóruns ou Comitês nas universidades que congreguem professores, estudantes e servidores é algo fundamental para a defesa da autonomia e democracia nas instituições de ensino superior, ainda mais agora quando o governo Bolsonaro tem realizado uma série de ataques contra o ensino público, com uma política deliberada de destruição das universidades e institutos federais públicos. Neste sentido, a mobilização unitária das categorias que compõem a universidade não somente é importante em qualquer contexto, como é uma necessidade premente na atualidade. A unidade da comunidade universitária, articulada com as organizações populares e sindicais, é a maneira concreta para derrotar o governo Bolsonaro e seus planos de desmonte da educação pública. Governo autoritário e liquidação do que ainda resta de democracia Os governos Temer e Bolsonaro surgidos, do golpe de Estado de 2016, estabeleceram como uma das suas metas principais o ataque cerrado contra as universidades e o ensino público. O sucateamento das estruturas físicas, perseguição a professores e estudantes, cortes de verbas, entre outras medidas nocivas ao ensino público. Os ataques contra as universidades são orquestrados não somente por conta de uma posição ideológica, o que pese que também neste ponto o MEC bolsonarista é profundamente reacionário, e, portanto, contra a educação, cultura e o saber. Existem interesses econômicos privatistas por detrás dos ataques, o projeto Future-se evidenciou que a política “educacional” dos capitalistas para a universidade é a privatização e desmonte do ensino público. Um aspecto decisivo para implementação dessa política de terra arrasada é o controle político e administrativo sobre as estruturas decisórias nas instituições de ensino superior. Por isso, a política do MEC é procurar a todo custo impor um controle rígido e atacar qualquer vestígio de democracia nas universidades. Assim, a mínima participação da comunidade nas decisões, como votar em consulta para dirigentes universitários, é visto como algo subversivo, que extrapola as “regras” antidemocráticas estabelecidas. Inclusive, no início da pandemia da covid-19, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, pretendia intervir nas universidades e institutos federais, aproveitando-se da crise sanitária para nomear, sem a necessidade de consulta formal, interventores “legais”. A MP, assinada por Bolsonaro, foi rejeitada no Congresso Nacional, mesmo assim, aproveitando-se da legislação autoritária, continua nomeando ao seu bel prazer interventores nas universidades, recentemente o fato se repetiu na Universidade Federal de Sergipe. Esta é uma política que está longe de ser novidade. Já no período de Temer, o ataque feito a autonomia das Universidades iniciou-se. Contudo, foi no governo de Bolsonaro que a imposição autoritária sobre as instituições virou uma rotina, com a imposição de reitores não eleitos em dezenas de federais, tanto de ensino superior quanto técnico-integrado. Construir a unidade entre professores, estudantes e servidores técnicos As direções do movimento docente, dos servidores e a UNE não apresentaram nenhuma política de enfrentamento efetiva contra os ataques de Bolsonaro em relação à autonomia universitária. É preciso reverter a paralisia colocando em pauta uma unidade dos três segmentos que compõem a comunidade universitária, que coloque em xeque as arbitrariedades do MEC. Em contraposição à política fascista colocada em marcha pelo governo Bolsonaro, o movimento estudantil, o movimento docente e os servidores necessitam colocar em relevo como uma das principais reivindicações a constituição do governo tripartite nas instituições de ensino. Com esta política, os estudantes, professores, funcionários e a comunidade poderão determinar, de forma independente, as políticas que regem as instituições. Além do mais, a burocracia universitária presente nas instituições, em muitos casos ainda mais fortalecida pela intervenção ditatorial do governo federal, não é um obstáculo contra a política de Bolsonaro. Somente a mobilização independente da própria comunidade universitária poderá fazer frente aos ataques dos fascistas. A luta pela democracia nas universidades passa pela luta pelo autogoverno dos professores, estudantes e servidores técnicos que derrote a ofensiva da extrema direita, participando da luta pelo Fora Bolsonaro e pelo controle da universidade pelo governo tripartite.
O GENOCÍDIO E O AUMENTO DA OFENSIVA CONTRA A EDUCAÇÃO PÚBLICA

Os capitalistas e seus governos aproveitam da pandemia para intensificar os ataques contra a educação pública Antonio Eduardo Alves de Oliveira Desde o início do golpe de Estado de 2016, o setor de educação foi escolhido como alvo preferencial dos governos golpistas. No governo Bolsonaro, os cortes de verbas, a nomeação de interventores e a perseguição de docentes são retratos dos ataques contra a educação pública. A crise econômica e sanitária veio amplificar a política de desmonte da educação pública no Brasil. A saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação, ao contrário do que foi dito, não representou uma alteração na política destruidora do governo Bolsonaro. A demissão de Carlos Alberto Decotelli, que ficou menos de uma semana no MEC, e a posterior nomeação do pastor Milton Ribeiro como ministro evidenciaram a enorme crise entre as alas golpistas que compõem o governo, explicitando uma feroz disputa dentro do bloco golpista pelo controle de um dos maiores orçamentos do governo federal. Entretanto, um ponto unifica todas essas alas golpistas: a unidade em torno da continuidade da política de destruição do ensino público. “Ensino remoto emergencial”: abre alas para a privatização Os capitalistas estão aproveitando da crise sanitária em decorrência da pandemia da Covid-19 para intensificar a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e do conjunto da população. O governo Bolsonaro adotou, desde o início da pandemia, uma política de completa negligência das condições sanitárias básicas para evitar a propagação do vírus, adotando uma política abertamente genocida, vinculada a uma defesa extrema dos interesses do capital. Ainda sob o impacto inicial da pandemia, e pressionados pelo colapso iminente do sistema de saúde, os governadores de direita, entre os quais João Dória (SP) e Wilson Witzel (RJ), apresentaram-se como “opositores” de Bolsonaro. Acontece que até mesmo o “isolamento” seletivo apresentado como alternativa “científica” foi completamente abandonado no exato momento em que o contágio se amplia, o que evidenciou que no essencial os governadores “opositores” e Bolsonaro são corresponsáveis pela catástrofe que se abate sobre a população brasileira. O sistema de saúde esta completamente sucateado, não foram realizados testes na população, faltam remédios, insumos e equipamentos médicos necessários para combate a Covid-19. Além do aumento do desemprego e da redução salarial, os capitalistas e seus governos têm aproveitado da crise sanitária (e da paralisia das direções sindicais e dos partidos de esquerda) para impor o mais completo desmantelamento da educação. Da mesma forma, os capitalistas utilizam-se da crise sanitária para ampliar seus negócios, usando inclusive do ensino à distância para impor seus modelos privatistas na educação. Com a pandemia do coronavírus, a desigualdade, já existente entre os alunos da rede pública e privada de ensino, ficou ainda maior. Tanto o MEC quanto as secretarias estaduais de educação não apresentam nenhum suporte para os estudantes e profissionais da educação, nenhum acolhimento, nenhum investimento, nada. O objetivo é tão somente manter as “aulas virtuais” durante o período de distanciamento social, com a implementação de métodos de ensino à distância, mas, devido à falta de verba, sem equipamentos adequados e nem preparação pedagógica, o “ensino remoto” representa o aumento da precarização da educação. O estabelecimento do “ensino emergencial remoto” é uma forma deliberada para aproveita-se da crise sanitária para expandir a EAD. Isso, na prática, representa um retrocesso à educação pública no País. O chamado ensino remoto emergencial nada mais é do que um abre alas para o aumento da deterioração do ensino público, com queda vertiginosa da qualidade de ensino. Na prática, a farsa do ensino à distância já tem provocado efeitos danosos na categoria docente, como a demissão em massa de professores na rede privada e de professores eventuais ou substitutos nas escolas públicas. A improvisação para garantir as aulas na modalidade remota na emergência da pandemia da Covid-19 é apresentada como a “busca por alternativa provisória”, mas, na verdade, é visto pelos tubarões do ensino privado como uma “janela de oportunidade” para passar a “boiada” do ensino à distância. Inclusive, o projeto de fim da escola pública já tinha sido anunciado no programa Future-se, de autoria do governo Bolsonaro. O “emergencial” é parte de um plano maléfico de privatização do sistema de ensino e a substituição das aulas regulares por aulas remotas. Por isso, o modelo usado para substituir as aulas regulares tem de ser barrado. Não ao retorno às aulas em plena pandemia Além disso, em diversos estados da federação, como em Brasília e São Paulo, os governos pretendem impor a abertura das escolas, mesmo sabendo que essa abertura significará decretar o aumento das infecções e mortes em larga escala. Neste sentido, a política de retorno às aulas em um momento de estouro dos contágios, que oficialmente se aproxima da marca de 3 milhões de infectados e com quase 100 mil mortos, é uma política de aprofundamento e ampliação do genocídio. A mobilização dos professores em São Paulo, com manifestação de rua contra o retomar as aulas em meio pandemia, significa um importante passo para barrar o genocídio sem precedentes contra as crianças, os jovens, e por extensão a seus familiares, o que atinge, sobretudo, os mais pobres. Não existe previsão de cura ou vacinação em massa que garanta o fim da pandemia da Covid-19. Por isso, o retorno das aulas presenciais significa, na prática, ampliar a contaminação e as mortes. Portanto, o movimento docente não pode aceitar em hipótese alguma o retorno das aulas presenciais. O único protocolo para retorno das aulas é o fim da pandemia.
“Porque há o direito ao grito. Então eu grito. Grito puro e sem pedir esmola”*

Laura Bezerra (professora do CECULT) Assisti hoje, das 10h-16h, a sessão da Câmara Municipal de Santo Amaro da Purificação, minha cidade, que deliberou sobre a instalação da empresa Orbi Química no terreno da antiga Fundição de Aço Trzan, à beira do rio Subaé e ao lado do manguezal. O projeto não foi aprovado (o que me alegra), mas numa sessão permeada de mentiras de toda sorte, parte dos vereadores criou uma narrativa (sórdida!) da UFRB como “instituição que impede o progresso da cidade”. Gostaria, portanto, de explicar algumas coisas muito básicas: 1) LEGISLAÇÃO: O projeto apresentado pela Prefeitura fere a legislação municipal em vários aspectos (link para os documentos legais no final do textão): a. De acordo com o Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal a área da Trzan é considerada zona de proteção histórico-ambiental (Art. 54, X), assim como os lindes do Rio Subaé no perímetro urbano (Art. 54, XI), ou seja: não é permitida a instalação de uma indústria química neste local. Só isso seria suficiente para barrar o projeto, especialmente numa cidade marcada por tragédias ambientais, mas tem mais. b. A Lei Orgânica do Município estipula a necessidade de estudos de viabilidade técnica, ANTES da liberação de uma licença. Esses estudos NÃO foram realizados. c. Os Art. 33, 36 e 37 do Código Ambiental (de 2019!) determinam a necessidade de uma licença PRÉVIA, que deve ser publicada no Diário Oficial. Essa licença será concedida APÓS realização de um parecer técnico, também público. Nada disso aconteceu. d. O Código Ambiental prevê, ainda, Audiências e Consultas Públicas (Art. 43 e 44). Estudos prévios de impacto ambiental devem ser divulgados com 15 de antecedência, no caso de Consultas, e 8 dias, no caso de Audiências. No dia 22/7, a Prefeitura fez uma live (apelidada de audiência pública) com a empresa, que foi divulgada na véspera. Ou seja, não conta como audiência pública. Foi somente aí que a UFRB soube do ocorrido. e. No ano passado, a vereança instituiu um Polo Industrial na cidade, no distrito da Pitanga. Se é pra instalar a Orbi Química na cidade (APÓS o cumprimento dos ritos legais, claro!), o local seria esse, não é? 2) IMPACTOS ECONÔMICOS E AMBIENTAIS: a. A Prefeitura fala em 150 empregos diretos. Quantos deles ficariam realmente na cidade? Que empregos seriam esses? Que renda gerariam para a população de Santo Amaro? Como não foram apresentados estudos, não sabemos. Mas sabemos que muitos trabalhadores qualificados viriam de Salvador e voltariam pra lá todos os dias. Quantos empregos ficariam realmente para a população de Santo Amaro? b. Qual a consequência dessa fábrica na beira do rio e do manguezal para os Pescadores e Marisqueiras da cidade-sede e seus distritos? Seus impactos ambientais? A Associação dos Pescadores e Marisqueiras Frutos do Mar, em conjunto com uma série de outras associações civis, se manifestou contrariamente e abriu ação contra o Município no Ministério Público Federal. c. 150 empregos (que não sabemos quantos são efetivamente) valeriam prejudicar o sustento de um grande número de pescadores e marisqueiras da cidade? 3) SOBRE O TERRENO DOADO À UFRB: a. O Terreno das ruinas da Fundição Trzan foi doado à UFRB para viabilizar a vinda do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) para Santo Amaro. O projeto de construção é lindo e seria um grande ganho para a cidade, especialmente para o entorno, que é muito, muito pobre. Planejamos uma universidade aberta, com os jovens frequentando nossa biblioteca, assistindo filmes e shows de teatro e música, fazendo cursos de extensão na nossa sede. b. Por se tratar de prédio e área históricos, a construção do Campus Universitário foi vinculada ao PAC Cidades Históricas. O IPHAN já tinha feito o projeto inicial e estávamos na elaboração do projeto executivo, quando aconteceu o golpe. As verbas para Educação e Saúde foram congeladas por 20 anos pelo traíra do Michel Temer e seus asseclas (lembram disso? Pois é…). Por isso, o prédio ainda não foi construído, nem mesmo iniciado. Mas o PAC das Cidades Históricas ainda existe, nossa obra está lá, com previsão de ser realizada (cf. http://pac.gov.br/obra/64956). c. A UFRB, que paga o DARF e todas as taxas pertinentes, sequer foi comunicada de uma possível transferência do terreno. Nem um zap recebemos. Não há mais um mínimo de civilidade a reger as relações institucionais? d. No início, quando tinha um único curso, a UFRB, funcionou na Escola Doutor Bião, tínhamos duas salas de aula. e. Hoje temos 6 cursos de graduação e 3 especializações (uma quarta tramita) e o CECULT funciona no prédio do antigo Colégio Pedro Lago, cedido provisoriamente pela Prefeitura. Já não cabemos mais lá. Esse sempre foi um espaço provisório. 4) DAS LINDEZAS DE SER PROFESSORA MESMO EM CONDIÇÕES ADVERSAS a. Fui criada na Rua do Rosário, 33. Sou neta da professora DosAnjos, filha da professora Laury, sobrinha da professora Zuleica e irmã da professora Vania. Estudei no Poli e no Teodoro, antes de ir para Salvador para poder cursar a universidade. b. Voltar pra Santo Amaro, depois de tantos anos fora foi uma alegria. Vocês não imaginam o que vivi nesses últimos seis anos formando jovens (e sendo também formada por elxs), em sua maioria pretxs e pobres, primeiros de suas famílias a fazer um curso superior. Encontrei jovens brilhantes, criativos, inovadores, disciplinados, comprometidos. Tenho visto vôos admiráveis. Pessoas que me emocionam na sua vontade de criar um país melhor – mesmo lutando contra todas as adversidades possíveis. c. “Eu acredito é na rapaziada” e cada dia mais se fortalece a certeza da importância da educação. Educação viva, implicada, situada. Sou do bonde de Paulo Freire e Milton Santos. “Com muito orguuuulho, com muito amooor”. Alguns dos nobres edis da minha cidade hoje nos xingaram, desrespeitaram, ofenderam. Despudoradamente, disseram toda sorte de mentiras deslavadas. Foi feio, sórdido, de uma mediocridade assustadora! Criaram uma falsa polarização UFRB-Orbi. Apresentaram a UFRB como entrave à indústria. Se utilizaram do nosso nome para encobrir sua incompetência: o projeto apresentado não apresentava viabilidade mínima, como mostrei no item primeiro.