APUR

Desencantamento da Pátria Educadora

A democratização do ensino superior sempre foi uma bandeira de luta das entidades de classe e do movimento estudantil nas universidades públicas brasileiras. A LDB e, principalmente, as interpretações, ações e estratégias demandadas pelo governo de FHC, deram início a um modelo de democratização que chocava ao então defendido pela comunidade acadêmica no intramuros das universidades. Neste governo, a ideia socialdemocrata, de centro esquerda, de atribuir valor público ao privatizado, ou seja, modificar o privatizado pelos interesses públicos e coletivos, foi resignificada pelos reformadores brasileiros que passaram a inverter o princípio da denominada publicização, quer seja, passaram a estabelecer caráter privado ao que é público e, utilizar-se de propagandas e difusão de informação, estritamente vinculadas a interesses, portanto, instrumental, para inferir na sociedade a emergência de tais ações, como mecanismos de modernização do Estado e desenvolvimento equitativo da sociedade. Não obstante, os anos que separam os governos de F H Cardoso do atual Governo da Presidenta Dilma Rousseff, o paradigma de sucateamento da educação superior, redução do Estado e da precarização dos serviços prestados pelo Estado perpetua-se, senão nas práticas privatistas do Estado, mas, principalmente, pela adoção dos princípios paradigmáticos que orientaram as reformas do MARE do Bresser e do MEC de Paulo Renato de Souza e que, hoje, estão presentes no imaginário da democratização presente no atual olhar do MEC, do Janine Ribeiro, e do MPOG de Nelson Barbosa. Haja vista, que na contramão das conquistas contrárias ao previsto na PL 4330, que trata da terceirização, onde, se busca estabelecer o impedimento à terceirização de prestação de serviços fins, o julgamento da inconstitucionalidade da Lei 9.637/98, que dispõe sobre a qualificação de entidades privadas como organizações sociais e a criação do Programa Nacional de Publicização, foi indeferido pelo Supremo Tribunal Federal. “Surpreendentemente”, o STF decidiu, após 15 anos, que as denominadas organizações sociais, teriam a validade da prestação de serviços públicos de ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação ao meio ambiente, cultura e saúde. Nestes amargos anos 90, Marilena Chauí, citando Michel Freitag (Le naufrage de l’université, 1996), nos chama a atenção para o caráter distintivo, entre a universidade como organização social e aquela denominada de instituição social. A primeira tem caráter instrumental, está focada em esquemas de gestão para obtenção de objetivo particular e, está orientada pelos conceitos de eficácia e eficiência dos meios para se alcançar os objetivos; é regida pelo planejamento, previsão, controle e êxito e, não lhe cabe questionar a sua existência ou função, nem o papel que desempenha na luta de classes. A segunda, aquela que nos apraz, é percebida como instituição social, tem a universalidade como princípio e a sociedade como interlocutora, realça a autonomia e a capacidade criativa e crítica de observar e propor à sociedade alternativas de superação das crises. Promotora de debates sobre sua existência e função, desempenha o papel emancipatório na luta de classes. Mas, diante da crise, e acuada entre ajustes fiscais e reordenamento dos investimentos em serviços essenciais à sociedade, o governo da Pátria Educadora!, rompe com a mágica que alimentava os sonhos e os olhares de jovens docentes e, de uma parcela significativa de jovens estudantes, indivíduos estatisticamente e historicamente excluídos da educação superior. Esta denominada Pátria Educadora!, cria os Brasis e os distingue em suas ações políticas de promoção de equidade, pois, ao tempo em que proporciona a ampliação do número de campus, aumenta o número de acesso, põe em descaso a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; ela, precariza o trabalho docente; esvazia os investimentos na pesquisa e, principalmente, descuida dos direitos individuais dos docentes, destituindo-lhes as condições de permanência. Quanto aos discentes, estes observam a cada período um descuido com a permanência destes na universidade, a equidade que assegura o direito coletivo de estar ali persiste; mas, as políticas de promoção da igualdade dos direitos perante as condições que o desiguala para permanecer, estão sendo sucateadas pelos constantes cortes nas verbas destinadas a educação superior. A Pátria Educadora! sucateou os sonhos e a esperança; eliminou a mágica em torno da política, que encantava a todos e dava crédito ao Estado no enfrentamento das desigualdades de desenvolvimento entre regiões e unidades da federação. A mistificação ou a mágica que a expansão e reestruturação do ensino superior promoveu, estão dando lugar ao desencanto, à perda simbólica do sentimento de pertença, a ocultação da curiosidade criativa que promove a ascensão da ciência e a produção científica. O número de novas vagas, associado ao número de novos campus e universidades, não são a panaceia de todos os males da educação superior, é preciso responsabilidade política para assegurar as verbas para manutenção dessas instituições como, pública, de qualidade, e de caráter universal. Logo, não se trata da matematização dos saberes e dos fazeres no campo do conhecimento – conforme consta nos índices de produção mensurados nas plataformas Lattes e Sucupira -, mas do saber fazer no campo da política. Portanto, para uma Pátria se constituir Educadora, é preciso respeitar as territorialidades e as individualidades e, erguer pressupostos homogêneos para democratizar a universidade, torna-la emancipatória e crítica. Deve-se materializar uma Instituição Social de responsabilidade exclusiva do Estado, autônoma, criativa e produtora de conhecimento. No Outono de Amargosa, maio de 2015 Na contemplação da árvore do pensamento

Carnavalizando a escola de lata

Carnavalizando a escola de lata Por kiki Givigi 05/02/2015   Susto. Boquiaberta, minha língua não roçava mais o espelho d’àgua que amenizava o abismo entre os livros da estante da biblioteca e  as salas cotidianas.  Afogaram a paisagem do lago no metal. Masmorras modernas, onde certa vez vi homens padecer.  Já havia muros demais e agora…latas. Sequestrada por uma linha de fuga fui levada a percorrer, fugir, criar, traçar…Como produzir na testa um olho vibrátil que desarranje a fácil associação triste entre a imagens em cadeia? Como desencadear e molhar as mãos em material à espera de criação – papier mache – e compor?  O que fazer para decompor latas? (que desejo de Manoel de Barros em mim!) Ah…o carnaval, o carnaval… Era também a semana da visibilidade das pessoas transgêneros, destas que embaralham códigos e são lançadas à margem das definições, enquanto garantem, com isso, a segura parede de ferro das fronteiras definidas. Destas pessoas que perturbam a escala de gêneros perfeitos dos salvos pela heteronormatividade nordestina, quando sua ellegance irritante de meninas de  bagos esquecidos entre as pernas, passeia no Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Sexualidades femininas/masculinas decompunham as passagens rijas. Isto tudo acontecia lá, enquanto a educação fenecia em latas e eu pensava…e o carnaval? E o carnaval? ‘É necessário, é temporário, é provisório’, ressoavam as caixas de lata promovidas à escola. Havia uma orquestra de mau gosto que tentava sempre nos convencer que há um programa essencial, uma etapa inevitável, uma forma escalonada e que, por ela, devíamos passar. Modelo-estrato, redundância da política idealista.  Paralelamente, e no fim das etapas, haveria um território infinito, tanto quanto essencial, onde este caminho de escalas pode nos levar. Devemos percorrê-lo, atad@s na ‘suposta concretude’ e perder a sensibilidade fabricada pelos encontros. Desejo, desejo fabricado no corpo … corra, corra deste! Caminhemos todos em direção a central fornecedora de sentidos e deixemos a educação-lama-papier-mache para os que gostam de sujeiras, diziam as vozes da moral de plantão!  E as meninas e meninos double percorriam o mundo entre as escolas de lata e desenvolvendo seus olhos vibráteis ofereciam a diferença que caminha esquizofrênica em busca de expressão.Diferença-mache que afirma a produção. E o carnaval? Via-se o contraste entre educação molar e molecularidades circulantes, rodopiantes, vacilantes… Entre os culhões de metal, floresciam pênis e vaginas aquosos, intumescidos de um plasma que afirmava gêneros fora das latas, gêneros que não cabiam nas latas. Gêneros constituídos de sexualidades perturbadoras das normas, feitos do pecado da experimentação, gêneros-desejos-de-carne. El@s tinham “as pegadas dos fluxos do mundo no corpo: sensações de todo tipo, investidas mais ou menos intensamente pela força do desejo”, como me lembrava Suely Rolnik na conversa sobre tristes gêneros, referindo-se às limitações da verdade binária.  Ali onde os fluxos se deslocam, vulneráveis aos terremotos do mundo, as composições se fazem, desfazem, refazem, sem a encenação binária. Ali evidenciam as inumeráveis forças do devir. Diante del@s, papai-mamãe é teatro e assume seu lugar de investimento social no desejo e de política de verdade. Borbulha quente um processo incessante que promove a dispersão de um sistema de referências (aquele que faz funcionar um regime político da libido) e conexões reais entre linhas que fogem, fogem, fogem.  E o carnaval? E o carnaval? Os gêneros plasmavam sobre as latas e eu pisava de salto dourado Luis XV, com meu esplendor vermelho monumental cheio de penas e paetês na cabeça, respirando carnaval, bebendo carnaval, acoplando máquinas em máquinas, corte e fluxo. Figuras brilhosas, pedacinhos de coisa qualquer fosca, retalhos, jóias, materiais desassociados, despejados na ladeira e nos atalhos desafiam os agenciamentos estratificados – molares – em busca de estratégias de expressão. Meu gênero- professora não cabia diametralmente na lata e isso já era a primeira peça do bricoleur: a professora que-gora-e-gruda seria estendida até o limite, carnavalizada pelos acoplamentos múltiplos com os desejos das trans-capitus-carnavalescas.  Ufa! As intensidades seriam agenciadas e escapariam também, permitindo a passagem da molaridade àquilo que devém a educação – suas singularidades e molecularidades. Mas, nada estava dado. Era preciso carnavalizar. Os encontros instaurariam e acoplariam máquinas que desestabilizassem as organizações –orgânicas (organismo) do corpo: tudo pode, tudo suporta, tudo espera! A vida limítrofe do corpo produziria experimentações sem cadeias causais que enroscadas ao plano imamente geraria afectos próprios à destruição dos micro-facismos. Quem sabe o carnaval poderia ser tão renitente com seu ataque à narciso que ele – o próprio narciso-  deslocar-se-ia do espelho do eu à sua fábula, de onde poderíamos avistá-lo em seu caráter de tecnologia de controle?!  Constranger Narciso, eis a tática! Teríamos, neste processo, a educação livre de latas e, ao mesmo tempo, livre de desejos repassados e enquadrados nas referências imóveis?  Ao mesmo tempo em que as máquinas cortam, elas mesmas, máquinas em máquinas produzem fluxo, uma espécie de continum descontinum. O encontro com eleelas, o bricoleur de multiplicidade, queerizando os gêneros e mostrando que, apesar da violência dos dias, a alegria pode permitir que objetos parciais se liguem de intensidade a intensidade, carnavalisticamente, engolindo uns aos outros, deu um tom às latas, quase desfazendo-as.  Passando delas, entrecortando-as, objetos parciais vão dando passagens uns aos outros – folders, cores, bandeiras, escovas progressivas, cachos desarrumados, pilots,- infinitamente passando, anarquizando os signos da educação. Práticas e objetos difusos remetem-se para fora de si, para fora de nós e visibilizam afectos bonitos, doces e agressivamente afirmativos. È carnaval! O carnaval nos salvou das latas! Ele permitiu que destruíssemos materiais e com as latas rasgadas, inúteis e vazias remetêssemos as peças à oficina do tempo, à virtualidade que mora na imanência. Em platô de intensidades com Manoel de Barros as latas adoecem na terra, desmancham-se, namoram com as borboletas e são pousadas por passarinhos. Latas só podem ser escolas quando são destruídas de seu ofício de lata-indústria-educação-masmorra. Latas só podem ser escolas quando nelas pousam as esquisitices do tempo e elas emendam-se aos ritos de desfazimento: como os gêneros só podem ser felizes quando deixam o binarismo adoecer e reconhecem a operação artificial que o produz. Operação queer-fim-das-latas. Não é contra as latas, é por entre

Commodity, Container & Educação

Commodity, Container & Educação O entendimento comum da palavra Commodity ou do seu plural Commodities é simples, e representa a ideia de mercadoria. O conceito, na sua apropriação mais simplista, nos revela que estas mercadorias são fungíveis, ou seja: mercadorias que podem ser trocadas por uma outra independente de quem a produz. Portanto, trata-se de bens móveis cujas características são comparáveis em valor – determinado pelo mercado – e não em qualidade; assim, são bens substituíveis, por uma outra mercadoria cuja essência pode vir a ter o mesmo significado, mas, não necessariamente, o mesmo valor capital ou cultural. Os serviços na globalizada sociedade Neoliberal são commodities, transacionadas por um mercado que busca estabelecer padrões comuns de consumo e, que poderia reescrever uma máxima: “digas, o que consome e onde consome e te direi quem tú és”. Essa readaptação do dito popular, segregacionista, reserva este mesmo significado para este consumidor, cuja grife do que e onde consome, o estratifica na sociedade, colocando-o em posições econômica ou culturalmente hierarquizadas. Assim, passamos a compreender que determinados bens e serviços, deixam de expressar a experiência e o valor cultural de uma dada sociedade. Esta relação entre os commodities e os serviços interessa a todos nós, pois resvala na forma como apreendemos e compreendemos a importância de dados serviços para a nossa sociedade, assim sendo, ao pensar a educação superior e a importância desta para o desenvolvimento social, questionamos este atributo neoliberal que a classifica como Commodity. Mas onde colocar estas commodities? Em Contêineres, responderiam aqueles que compreendem a educação superior como uma mercadoria fungível, cuja qualidade será expressa na grife de quem fornece o serviço. O container pode ser compreendido como uma caixa de metal utilizada para o transporte de mercadorias preservando as qualidades e características das mesmas ou, como um objeto que contém outros objetos que podem ser removidos de forma dinâmica. Em ambas interpretações trata-se de algo que reserva mercadorias e busca preservar suas características. A educação superior, na moderna intervenção neoliberal, é uma mercadoria que contém outras e busca preservar as características intangíveis do capital cultural e científico que a constrói. Seus servidores da educação e discentes são operários de um bem que se ergue na valoração dos saberes e dos fazeres sistematizados, logo de experiências que se constroem no convívio teórico e prático em torno de uma área do conhecimento ou ciência. Mas porque reservá-las em Contêineres? Seria simples responder, contudo, não partilho dos princípios neoliberais que estabelecem a educação superior como uma mercadoria/commodity, que necessita de caixas de metal para se fazer existir e valer. A crítica que se estabelece não é somente a estrutura física que destrói a paisagem local e atribui novas leituras aos espaços da universidade, nos fazendo lembrar do cais de um porto acumulando mercadorias para a exportação e a espera dos estivadores da educação. Mas, ao significado simbólico que se estabelece, desnudando: a fragilidade da interiorização, o valor atribuído aos nossos saberes, a importância do produto que aqui se faz e produz e; à grife do nosso ato de certificar os egressos da nossa instituição. Cabe uma reflexão para que não sejamos vistos como “enlatados”, cujas decisões e atuações poderão materializar estigmas que demarcarão nossa existência para o extramuros da nossa universidade. Brasil. Pátria Educadora! José Raimundo de J Santos Docente UFRB

DEMOCRACIA E AUTONOMIA NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Antonio Eduardo Alves de Oliveira Professor ciências sociais UFRB Em 2015, ao completar um decênio de existência, duas questões de extrema importância prometem enfocar as atenções na UFRB: o processo sucessório da reitoria e a convocação da estatuinte. A questão da estatuinte na UFRB e o processo de escolha dos dirigentes nas universidades colocam em relevo uma problemática mais substantiva: qual o grau de democracia e participação nas instituições de ensino superior no Brasil. Apesar de a UFRB ser uma instituição nova, produto da expansão recente do ensino superior a partir do REUNI, a nossa estrutura de funcionamento atual, inclusive o processo de escolha dos dirigentes, tem características imperiosas herdadas da mesma lógica das antigas universidades. Em parte, isso se explica pela herança da tutora (UFBA), mas é um processo político mais complexo, tem a ver com o fato que nem nos governos da Nova República nem nos atuais governos do PT aconteceu um efetivo processo de democratização da estrutura de poder das instituições do ensino superior. Os processos estatuintes e as escolhas de dirigentes nas novas universidades, apesar das promessas, mantém, quase que na sua totalidade, a mesma restrição a participação da comunidade acadêmica. Dessa forma, é importante assinalar que mesmo a “universidade nova” apresentada nos últimos tempos como panaceia para crise universitária mantém o controle das decisões como na universidade velha da época da ditadura militar. A luta pela estatuinte na UFRB não pode ser apenas a atualização das normas e regras de funcionamento da instituição. Assim como a “escolha” dos dirigentes não pode ser vista como apenas um referendar de projetos já previamente definidos. Neste sentido, como parte da mobilização da comunidade universitária da UFRB por democracia e autonomia, apresentou-se uma discussão sobre o processo geral nas universidades a partir dos anos 80 até o período mais recente de expansão das IFES. Interessante notar que, apesar das mobilizações da comunidade universitária em praticamente todas as universidades publicas do país (estaduais e federais) desde o período do fim da ditadura militar e pelas chamadas liberdades democráticas, a estrutura de funcionamento das universidades e faculdades é caracterizada por uma ausência efetiva de participação e democracia. Nos anos 80 e 90, a mobilização contra as listas sêxtuplas nos conselhos universitários e contra a ingerência dos governos nas escolhas dos dirigentes do ensino superior levou a uma ampla luta contra o que se chama “entulho da ditadura” nas universidades. A luta pela democracia e autonomia nas universidades públicas teve uma ampla repercussão e resultados contraditórios. A mobilização por estatuintes democráticas e por eleições diretas para reitor evidenciava a insatisfação geral e representava um questionamento relativo da estrutura universitária claramente obsoleta e autoritária, e que nem mesmo os reitores (e os demais cargos dirigentes) eram escolhidos pela comunidade universitária. Por varias razões, sobretudo pelo caráter geral da transição brasileira (longa e pactuada), em que a mudança também significou permanência. Aos poucos a burocracia universitária (a mesma da época da ditadura) foi abrindo espaço para setores opositores, sobretudo entre uma camada de docentes, que passaram eventualmente a conquistar posições de comando. Este processo de reestruturação dos membros da burocracia universitária foi feito na maioria dos casos através de mobilizações com discursos em nome de democracia e acordos nos conselhos universitários, em que foi instituída uma democracia limitada e controlada, ou seja, uma democracia de fachada. As entidades representativas dos três setores da universidade (docentes, estudantes e servidores técnicos) construíram consultas informais nos processos de escolhas dos dirigentes das universidades. Esta política foi implementada em todo território nacional pela atuação das direções (UNE, ANDES e FASSUBRA). As consultas eram apresentadas como um processo de eleição direta para reitor, o que, na verdade, não eram, pois continuava havendo a lista, a indicação pelos conselhos universitários e, por fim, a escolha final pelo MEC ou pelo governador do estado.  A luta pela democracia foi reduzida a exigir que uma consulta informal fosse referendada pela estrutura vigente. O que era apresentado como uma tática inteligente de driblar a estrutura para conseguir a democracia possível, foi se transformando em um mecanismo para preservar o poder nas mãos da burocracia universitária, agora renovada com parte dos oposicionistas. Em alguns casos, como na UFBA em 1988, o conselho universitário e o governo federal não aceitaram o mais votado nas consultas, e mais recentemente na USP, o que gerou atritos e mobilizações importantes. Entretanto, o que vale destacar é que os reitores democráticos “eleitos”, que passaram a ser a maioria na Andifes (Associação dos Reitores), apesar das promessas, e não tencionando por uma verdadeira autonomia universitária, não alteram os estatutos das universidades para que até mesmo a proposta limitada de eleição direta para reitor pudesse ser garantida. Mesmo após o fim da ditadura militar, nem nos parlamentos, nem por iniciativa dos governos executivos (governos estaduais e presidência da república), foram votadas leis para democratizar as universidades. A LDB e a Lei 9.192/95 estabeleceram que “o Reitor e o Vice-Reitor de universidade federal serão nomeados pelo Presidente da República e escolhidos entre professores dos dois níveis mais elevados da carreira ou que possuam título de doutor, cujos nomes figurem em listas tríplices organizadas pelo respectivo colegiado máximo, ou outro colegiado que o englobe, instituído especificamente para este fim, em caso de consulta prévia à comunidade universitária, nos termos estabelecidos pelo colegiado máximo da instituição, prevalecerão a votação uninominal e o peso de setenta por cento para a manifestação do pessoal docente em relação à das demais categorias.” Por sua vez, os doze anos dos governos do PT e seus aliados não alteraram  a antiga estrutura de poder nas universidades. O processo de melhoria do acesso com o aumento de vagas e com a expansão das IFES, com construção de novas universidades, não veio acompanhado de criação de novas formas de participação e democratização nas universidades. O resultado dessa ausência de participação e de confiança nas instâncias deliberativas das universidades é o aumento do desinteresse em participar da construção das questões estruturais da universidade pelos membros da comunidade. Ou seja, a construção

DEMOCRACIA E AUTONOMIA NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Antonio Eduardo Alves de Oliveira Professor ciências sociais UFRB Em 2015, ao completar um decênio de existência, duas questões de extrema importância prometem enfocar as atenções na UFRB: o processo sucessório da reitoria e a convocação da estatuinte. A questão da estatuinte na UFRB e o processo de escolha dos dirigentes nas universidades colocam em relevo uma problemática mais substantiva: qual o grau de democracia e participação nas instituições de ensino superior no Brasil. Apesar de a UFRB ser uma instituição nova, produto da expansão recente do ensino superior a partir do REUNI, a nossa estrutura de funcionamento atual, inclusive o processo de escolha dos dirigentes, tem características imperiosas herdadas da mesma lógica das antigas universidades. Em parte, isso se explica pela herança da tutora (UFBA), mas é um processo político mais complexo, tem a ver com o fato que nem nos governos da Nova República nem nos atuais governos do PT aconteceu um efetivo processo de democratização da estrutura de poder das instituições do ensino superior. Os processos estatuintes e as escolhas de dirigentes nas novas universidades, apesar das promessas, mantém, quase que na sua totalidade, a mesma restrição a participação da comunidade acadêmica. Dessa forma, é importante assinalar que mesmo a “universidade nova” apresentada nos últimos tempos como panaceia para crise universitária mantém o controle das decisões como na universidade velha da época da ditadura militar. A luta pela estatuinte na UFRB não pode ser apenas a atualização das normas e regras de funcionamento da instituição. Assim como a “escolha” dos dirigentes não pode ser vista como apenas um referendar de projetos já previamente definidos. Neste sentido, como parte da mobilização da comunidade universitária da UFRB por democracia e autonomia, apresentou-se uma discussão sobre o processo geral nas universidades a partir dos anos 80 até o período mais recente de expansão das IFES. Interessante notar que, apesar das mobilizações da comunidade universitária em praticamente todas as universidades publicas do país (estaduais e federais) desde o período do fim da ditadura militar e pelas chamadas liberdades democráticas, a estrutura de funcionamento das universidades e faculdades é caracterizada por uma ausência efetiva de participação e democracia. Nos anos 80 e 90, a mobilização contra as listas sêxtuplas nos conselhos universitários e contra a ingerência dos governos nas escolhas dos dirigentes do ensino superior levou a uma ampla luta contra o que se chama “entulho da ditadura” nas universidades. A luta pela democracia e autonomia nas universidades públicas teve uma ampla repercussão e resultados contraditórios. A mobilização por estatuintes democráticas e por eleições diretas para reitor evidenciava a insatisfação geral e representava um questionamento relativo da estrutura universitária claramente obsoleta e autoritária, e que nem mesmo os reitores (e os demais cargos dirigentes) eram escolhidos pela comunidade universitária. Por varias razões, sobretudo pelo caráter geral da transição brasileira (longa e pactuada), em que a mudança também significou permanência. Aos poucos a burocracia universitária (a mesma da época da ditadura) foi abrindo espaço para setores opositores, sobretudo entre uma camada de docentes, que passaram eventualmente a conquistar posições de comando. Este processo de reestruturação dos membros da burocracia universitária foi feito na maioria dos casos através de mobilizações com discursos em nome de democracia e acordos nos conselhos universitários, em que foi instituída uma democracia limitada e controlada, ou seja, uma democracia de fachada. As entidades representativas dos três setores da universidade (docentes, estudantes e servidores técnicos) construíram consultas informais nos processos de escolhas dos dirigentes das universidades. Esta política foi implementada em todo território nacional pela atuação das direções (UNE, ANDES e FASSUBRA). As consultas eram apresentadas como um processo de eleição direta para reitor, o que, na verdade, não eram, pois continuava havendo a lista, a indicação pelos conselhos universitários e, por fim, a escolha final pelo MEC ou pelo governador do estado.  A luta pela democracia foi reduzida a exigir que uma consulta informal fosse referendada pela estrutura vigente. O que era apresentado como uma tática inteligente de driblar a estrutura para conseguir a democracia possível, foi se transformando em um mecanismo para preservar o poder nas mãos da burocracia universitária, agora renovada com parte dos oposicionistas. Em alguns casos, como na UFBA em 1988, o conselho universitário e o governo federal não aceitaram o mais votado nas consultas, e mais recentemente na USP, o que gerou atritos e mobilizações importantes. Entretanto, o que vale destacar é que os reitores democráticos “eleitos”, que passaram a ser a maioria na Andifes (Associação dos Reitores), apesar das promessas, e não tencionando por uma verdadeira autonomia universitária, não alteram os estatutos das universidades para que até mesmo a proposta limitada de eleição direta para reitor pudesse ser garantida. Mesmo após o fim da ditadura militar, nem nos parlamentos, nem por iniciativa dos governos executivos (governos estaduais e presidência da república), foram votadas leis para democratizar as universidades. A LDB e a Lei 9.192/95 estabeleceram que “o Reitor e o Vice-Reitor de universidade federal serão nomeados pelo Presidente da República e escolhidos entre professores dos dois níveis mais elevados da carreira ou que possuam título de doutor, cujos nomes figurem em listas tríplices organizadas pelo respectivo colegiado máximo, ou outro colegiado que o englobe, instituído especificamente para este fim, em caso de consulta prévia à comunidade universitária, nos termos estabelecidos pelo colegiado máximo da instituição, prevalecerão a votação uninominal e o peso de setenta por cento para a manifestação do pessoal docente em relação à das demais categorias.” Por sua vez, os doze anos dos governos do PT e seus aliados não alteraram  a antiga estrutura de poder nas universidades. O processo de melhoria do acesso com o aumento de vagas e com a expansão das IFES, com construção de novas universidades, não veio acompanhado de criação de novas formas de participação e democratização nas universidades. O resultado dessa ausência de participação e de confiança nas instâncias deliberativas das universidades é o aumento do desinteresse em participar da construção das questões estruturais da universidade pelos membros da comunidade. Ou seja, a construção