Prof Dr. José Raimundo de Jesus-Santos
CAHL-UFRB
Xadrez não é um jogo fácil, nem tão pouco popularizado em nosso país. A disposição das peças no tabuleiro sinaliza para uma estratégia de guerra, onde cada território é resguardado pela cor e pela posição do soberano. Isto é, no início, cada qual fica no seu quadrado, rei branco na casa preta e o rei preto na casa branca. Por ocuparem essa posição diante do Estado e do Governo, eles se movimentam de forma lenta e cuidadosa, movendo-se apenas uma casa para qualquer direção, como os peões, que apenas no início dos seus movimentos podem saltar duas casas, sempre em frente, esse exército têm a função de resguardar toda a estrutura que estás por trás dele, as fortificações, a igreja, a cavalaria e a justiça, mas principalmente, o seu soberano.
Esse jogo, como já disse, é repleto de estratégias. E, como o ilusionista que busca fazer uma mágica, por vezes são criadas distrações a fim de que a estratégia possa ser construída e colocada em prática. Por vezes, o sacrifício de membros ou de peças do seu staff, faz parte da distração. Enquanto se observa a distração, outros movimentos mais objetivos e racionalmente estabelecidos são executados, sem que haja tempo para uma reação de forma mais pontual, ainda que a defesa também seja uma estratégia de ataque. Este jogo quando bem jogado demonstra como a mente humana pode derrotar a máquina, cujos algoritmos matemáticos, não aprendem de forma instantânea o sentido da distração ou do erro proposital.
Daí temos a tese de que o erro proposital não é uma proposição lógica falsa, até porque, seu sentido e significado não pode ser observado fora do contexto em que se encontra. A distração assume essa magnitude do falseamento para que o algoritmo que orienta o olhar do observador não a perceba como falsa. Estas são as fakes estratégicas que poluem o imaginário geopolítico global.
Mas quais são as fakes estratégicas que estão em jogo? Desde o aperto de mão forte e intimidador até as taxações, todas são fakes estratégicas. Elas servem para dar ocupação e manchete para as grandes mídia e redes sociais, alimentam os grupos de whatsApp, Telegram, Discord e “x”/Twitter. Reacende o debate público virtual entre ideologias distintas e ofusca as análises que ficam aprisionadas às aparências. Pelo menos é este o desejo de Trump, em parte, realizado e concretizado em parcelas significativas do conservadorismo global.
O velho barbudo disse um dia: “proletariado do mundo uni-vos”. Esta chamada sinalizava que as formas de expropriação e exploração das classes trabalhadoras estavam presentes em todos os territórios do globo, construindo uma geopolítica exploratória que precisava ser combatida e superada. Em maior ou menor grau o processo de destituição de direitos e ampliação de deveres para os trabalhadores é moldada de forma global pelo capitalismo que se reinventa e amplia suas estratégias de alienação, tornando cada vez mais próximo de si, aquele trabalhador, principalmente os da classe média e com escolaridade superior.
Nego Bispo comenta que a forma de adestrar o indivíduo é semelhante ao adestramento de animais, primeiro ele é desterritorializado, renomeado, alimentado e pessoalizado, ou seja, ele torna-se parte da coisa, torna-se colaborador, empreendedor individual, micro empresário, autônomo, profissional liberal, etc.. Ou seja, o trabalhador em si, deixa de existir, dialeticamente a sua condição de existir a partir da venda da sua força de trabalho em troca de salário não necessariamente vigora, sua condição de colaborador está associado a sua produtividade e a ideia de vestir a camisa, incorporar a filosofia exploratória da empresa como algo necessário e importante para sua sobrevivência.Então esse novo sujeito que emerge do processo crítico e dialético é um tipo de capitalista que se projeta nas redes, nos likes e posts.
A neo doutrina Trump/Monroe conclama a todos que acreditam no sonho americano, a se unirem em prol do fortalecimento da economia americana, que por conseguinte, irá fortalecer as economias individuais e tornar esta América um protótipo de império que assegurará para o mundo simulacros de democracia e Estado.
Daí que, se essa doutrina pretende adestrar outros países e nações, sua estratégia está em renomear seus motivos, destituir sua soberania, fazer com que no território existente, novas flâmulas, bandeiras e signos, indiquem a posse do novo Estado, comumente apresentado, como no jogo de xadrez, como uma distração necessária e solidária. A ideia de Desenvolvimento passa a ser a tônica do novo colonizador e adestrador geopolítico, mas como disse o Nego Bispo, isso implica em afastar os indivíduos e reduzir seus envolvimentos. Nesta nova fase do Kapital.com o ser máquina é mais que uma verdade, é um avatar da inteligência artificial controlado pelas grandes corporações. As mesmas que querem jogar o xadrez nos impondo suas fakes estratégicas. Na era Trump, a geopolítica global está reduzida ao pensamento mesquinho que quer ser imposto ao mundo, ou seja, um simulacro de democracia orientado por práticas exploratórias que desrespeitam as soberania de Estados e nações em prol da pilhagem de recursos naturais e acúmulo de mercado. Para isso, segue financiando o crescimento do conservadorismo em todas as partes do globo. Na verdade, segue construindo filiais do Governo Trump, em outros países e consolidando-se como epicentro desta nova fase de desenvolvimento do capitalismo – denomino de Kapital.com – onde os países tornar-se-ão filiais de Estados economicamente e belicamente mais fortes. Aliás, quando do início do capitalismo, essa estratégia foi usada e disseminada, e produziu a maior diáspora e genocídio da face da terra contra os povos do continente africano.
*Esse é um texto de opinião publicado no “Espaço do Professor/a”, aberto a todos/as filiados/as. Como todos os textos desta seção, não necessariamente reflete a opinião política da diretoria da APUR.
